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quarta-feira, 9 de junho de 2010

Escarlate


Ele sentia o sangue correndo por entre os dedos. Fechou os olhos e apertou a faca nas mãos. Sentia também a doce sensação de prazer descendo por sua espinha. Sorriu pela primeira vez em semanas. Abaixou os olhos para a aquilo e não viu nada. Não se perguntava se o cadáver tinha família, ou sonhos, ou amores. Não lhe interessava a beleza morta dela. Apenas lhe importava se tinha um coração, e se este pulsava sangue em suas veias. Sangue que agora lhe pertencia. Como o de outras antes dela. Era isso o que realmente significava algo para ele.
O sorriso meio de lado não lhe abandonava os lábios finos, enquanto ele a despedaçava com a mesma faca com que a matara. Cortou-a em pedaços muito pequenos e pensou consigo que Hannibal adoraria degustar um ensopadinho daquilo. Permitiu-se uma leve gargalhada ao pensar nisso. Bem, pelo menos não havia perdido a capacidade de se entreter consigo mesmo. Algo lhe dizia que se humor melhoraria consideravelmente após aquela madrugada. Quando ficava muito tempo sem sua droga - o plasma vermelho que fedia a ferrugem -, era como se sua vida perdesse a cor, e tudo ficava cinza e turvo. Aquela droga era o lápis-de-cor, que possuía apenas uma, de sua existência. Entretanto, lentamente aquela vida se esvaía novamente, e por mais uma vez ele precisava buscar aquilo. Nunca hesitava. Uma vez que era sua necessidade mor possuir-lo, era o que ele mais queria, o que dava sentido a todo o seu ser...
Queimou as roupas dela, e depois de apagar sua existência como se nunca tivesse ocorrido, levantou o rosto e observou o sol que começava, muito devagar, a invadir o céu. Matando a escuridão com seus raios potentes e sobrepondo às estrelas, como se elas nunca estivessem estado ali. O sorriso se alargou quando o sol tocou seu rosto, como uma carícia ele sentiu seu calor nas bochechas geladas.
Tudo estava colorido de novo, pintado em escarlate.