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segunda-feira, 3 de agosto de 2009

O Diário de Arthure Colt



Finalmente a última parte de Layla. Depois de muito zanzar, consegui por um ponto final nessa parte.

Foto: Arte de Edvard Munch (Expressionista).

Layla (Parte 2)

Voltamos para nosso apartamento, onde Gordome, a Feiticeira, nos esperava. Como sempre sentada em sua cadeira de damasco, observando as vidas que caminhavam despreocupadas pelas ruas de Londres. Respirei fundo, absorvendo a atmosfera daquele lugar antigo, como sempre fazia. Gordome nem se incomodou em nos encarar, mas disse, voz controlada:
- Bruxas...
- Sim Gordome. – respondeu Cétrico, animado. – Belíssimas, como o melhor sangue mágico que já bebi! Você deveria ir conosco algum dia desses! Muito forte o sangue dessas duas.
E se jogou no sofá de veludo roxo com um sorriso nos lábios morenos. Meu irmão era egípcio. Tinha o rosto liso de séculos atrás, quando fora transformado. Tinha apenas 16 anos. Mesmo com 400 anos ele não deixara para trás esse ar de adolescente.
- Soube de Amaethon, Mãe? – perguntei, meio sem jeito. Seu silêncio era apenas para Cétrico, já que em minha cabeça ela enviava imagens da festa como se estivesse estado lá. Mas não estava. Gordome era quase tão velha como Amaethon. Alguns milênios a menos acho. Duvido que ele fosse se ressentir da ausência dela, já que haviam se desentendido umas décadas atrás.
- Soube. Aislin fez o favor de me enviar as imagens da festa. Muito boa aquela vampira. Sempre gostei dela. – tremi quando Gordome pronunciou o nome Dela com sua voz sibilada. Ela se levantou da cadeira e me encarou do alto de seu metro de setenta. Tinha cabelos imensamente compridos e quase que totalmente grisalhos. Salvavam-se algumas partes acinzentadas. Me fitou firme com seus olhos azuis frios. – Você não deveria ter deixado ela te possuir daquele jeito. Não na frente de Amaethon. Ele poderia explodir sua cabeça com um pensamento.
- O que diabos eu poderia fazer? – perguntei desconsolado – Ou você se esqueceu de que tenho apenas três anos no Sangue. Ao todo, trinta de idade. Como eu deveria ter me portado frente aquele ser magnífico que me cheirou de modo tão completo? Deveria tê-la empurrado sem cerimônia? E mesmo que isso pudesse ter passado pela minha cabeça, como eu poderia tê-lo feito? Diga-me, Gordome?
- Não sei... – concluiu ela. Cétrico nos olhava atento. Seus olhos iam de mim para Gordome. – Só sei que não deveria ter sido feito. Repreendi Aislin por pensamento assim que vi as imagens. Mas porque ela me daria ouvidos? É a Líder agora. Não deve nada a ninguém. Mas eu também sei que ela não esperava o retiro de Amaethon, creio que ela pretendia ter um caso com você. Mas agora, que vai ter que passar por toda a cerimônia da retirada do Sangue de Amaethon, não creio que ela o faça.
Suspirei, acabado. Qual era o intuito daquela vampira? Me enlouquecer? Como eu poderia esquecer-me de sua fragrância? De seus belos olhos?
- Não poderia ser mesmo, mano. De qualquer forma acho que foi melhor assim. Já que se vocês tivessem mesmo ficado juntos por algum tempo você talvez nunca conseguisse se livrar no amor por ela. Veja os exemplos de Arquimedes e Igor. O primeiro tentou se imolar por ela. Sendo salvo por César e por ela mesma. O segundo mataria Amaethon para ficar com ela e faz de tudo para chamar sua atenção.
- Cétrico fala sabiamente. – disse Gordome. – Aliás, sei nas Bruxas. Não se apegue demais a moça, meu jovem. – aconselhou, olhando para mim.
- Porque? – perguntei.
- Porque duvido que durem mais do que meia hora... – sentenciou, se sentando novamente na cadeira para voltar a sua atenção, mais uma vez, para os passantes.
Me perguntei o que ela queria dizer com isso, e subitamente me lembre.
- A Inquisição... – e corri porta afora.
Corri o máximo que pude, mas não tive tempo. A fogueira já estava pronta, mãe e filha já estavam lá, quase nuas, amarradas àquela arma atemporal, e quando o fogo começou a lamber seus calcanhares, seus gritos estridentes me alcançaram, assim como os olhos de Layla, que por um segundo fitaram os meus, esquecendo naquele breve momento a dor lacerante que sentia. Não conseguiria tirá-las de lá, mas não poderia vê-las morrendo tão lentamente, e em uma fração de segundo pulei e quebrei seus pescoços. Primeiro o da mãe, e depois o da pequena e maravilhosa Layla. Vi com uma terrível tristeza seus belos cabelos vermelhos ardendo até que o cheiro de carne humana queimada me turvou os sentidos. Saí dali o mais rápido possível.
Gordome tinha razão quando disse que não durariam nem meia hora. Não deixei que durassem. Minha doce Layla... Espero que os céus tenham aceitado seu sacrifício queimado.
E com os olhos avermelhados das lágrimas que derramei enquanto roubava seus corpos da fogueira quase extinta e as enterrava no solo úmido, caminhei lentamente pensando quando eu finalmente poderia amar alguém. Alguém que não fosse queimada, ou Líder. Alguém que não tivesse títulos, apenas o de pertencer a mim. Só espero que não demore.

Um comentário:

  1. nossa, adoro suas narrativas... e adorei essa parte ficou muito boa, ate pela parte da historia mais dos bruxos e tudo...
    parabens.

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