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sexta-feira, 24 de julho de 2009





2. Diferente

- Sim papai! – gritou a moça, enquanto lavava os pratos.
- Querida, venha cá sim?
Ela largou a louça e enxaguou as mãos alvas, e saiu da cozinha secando-as, em direção à sala.
- Aqui.
- Ah! Sim querida, me ajude com essa estante está bem?
Ela riu enquanto via o embaraço do pai. Ele tentava instalar o DVD que haviam comprado há pouco.
- Não consegue arrastar de volta Dr. Smith? – brincou.
- Já estou mais velho do que quando você nasceu, Rayne! Não tenho mais a mesma disposição... – lamentou o doutor cardiologista, Joseph Smith.
- Ah, aliás, eu queria lhe perguntar. – começou a moça enquanto caminhava até a estante, jogando o pano de prato nos ombros.
- Sim... – gemeu o pai, enquanto eles levantavam o móvel e o restaurava ao lugar de origem.
- Quem escolheu meu nome? Você ou mamãe? – seus olhos verde-claros brilhavam. Ele via nela uma cópia viva do ser que tivera por apenas algumas noites, mas que o marcara para toda vida. Aquela mulher, que nem humana era, que abalara todas as certezas do doutor renomado. E ele nem ao menos tinha certeza do que ela era. Apenas sabia que havia dado a ele o melhor presente do mundo. Sua filha Rayne. Mesmo sabendo que a jovem Rayne era diferente dos outros...
- Sua mãe, querida...
Disso Joseph tinha certeza. A pequena Rayne foi deixava ainda bebê em seus braços pela própria mãe. Chovia, e a mulher estava ensopada, mas o bebê seco e limpo. Faziam apenas cinco meses desde que ela havia sumido sem deixar rastros, apenas o coração partido do médico.
- Cuide dela... Já está com dois meses...
A encarou com espanto, enquanto ela lhe entregava o bebê.
- Não posso ficar com ela, Joseph. Ou você fica, ou eu a matarei. – sentenciou.
- Nunca! Está louca? – balbuciou, fitando a doce criatura em seus braços. – Cuidarei dela...
Ela virou-se para partir, mas antes, olhou-o sobre os ombros e sussurrou, com a voz embargada e o rosto manchado de algo que Joseph não pode ver o que era, a sala estava escura, apenas um facho da luz lunar iluminava o corpo belo do ser à frente de Joseph.
- Acho que... Bem... Rayne é um bom nome. – e sumiu sob seus olhos.
Enquanto a mente de Joseph vagava pelos mares do passado, a jovem Rayne o observava. As janelas fechadas e as cortinas cerradas. Os olhos brilhantes dela e a iluminação fraca da lâmpada deixavam à vista um pouco da estranheza daquela família de dois.
Ray era diferente. Os cabelos lisos corriam pelos ombros, diferentes dos ondulados da mãe, assemelhavam-se aos de Smith, mas a cor meio avermelhada dos fios era a mesma. Os olhos tão verdes, e os cílios pesados. O nariz afilado, a alvura da pele perfeita. Os caninos tão pontudos... Joseph levou a mão ao pescoço. Ainda tinha as cicatrizes frias...
- Papai? – chamou-o preocupada.
- Hã? Sim... – respondeu ele, voltando à realidade.
- Está tudo bem?
- Sim querida... Vá terminar sua tarefa.
Ela assentiu e voltou para a cozinha, enquanto Joseph Smith se deixava cair da poltrona marrom, e abaixava a cabeça nas mãos fortes. Pensava no futuro. O que aconteceria à sua pequena? Com apenas 17 anos... O que seria dela? Seria como a mãe, com aquela intolerância ao sol, a preferência pela carne mal passada... Ele apostava em vampiros, mas não sabia. Não sabia o que aquela mulher era, assim como não sabia o que sua filha era. Nenhuma doença durante a infância, mas a frieza da pele...
Suspirou e se levantou, afastou os pensamentos duvidosos e se concentrou nos fios à sua frente, sua prioridade agora era fazer o moderno aparelho funcionar.

sábado, 18 de julho de 2009

O Despontar da Lua III







Aislin se espreguiçou na cama, como uma gata, enquanto Victor a observava, sorrindo.
- Vamos, meu amor! Vamos para Londres! – disse ela, num salto.
Ele arregalou os olhos, surpreso.
- Mas não ficamos aqui em Portugal nem duas semanas! – exclamou.
- Passamos por Paris, Espanha, Itália, Alemanha... – comentou ela, contando nos dedos - Sua mãe não está em Londres? – o encarou. Os olhos verde-claros fixos nele.
- Sim... – sussurrou.
- Sem contar que foi onde seu pai nasceu! Deveria conhecer!
Victor voltou o rosto para a janela, observando o sol nascente.
- Ele não é meu pai... Rejeitou-me! – disse sorrindo amargamente.
- Trade não sabe o que é bom... – disse ela enquanto lhe sorria e o abraçava, carinhosa.
- Ele se lembra da vida de humano, como você? – perguntou, de súbito.
- Não muito... – respondeu ela, saindo de seu abraço e caminhando até a sacada. O sol batia fraco em seu rosto e Aislin se deliciava com os raios quentes na pele gélida. – Mas eu sei tudo sobre ele... Vi quando tomei seu sangue! Seu vasculhar bem... quando quero. – completou, rindo um pouco.
- Qual o nome humano dele?
- James. James Hildegard. Ele tinha uma esposa chamada Eve, e uma filha a quem deu o nome de Caroline. A menina era um pequeno bebê, e a esposa tinha 19 anos quanto ele desapareceu sem deixar rastros.
- Ah... – Victor se perdeu em seus pensamentos. E pensar que a descendência de sua irmã poderia estar por aí... Caroline Hildegard.
- Não fique esperançoso. As possibilidades de isso acontecer são nulas! Já faz 126 anos. – disse Aislin, lendo seus pensamentos. – Além disso, o que falaria para eles?
- Nada... – respondeu, embaraçado. – Apenas olharia uma única vez a família que nunca foi minha.
Aislin via a dor nos olhos de Victor pelo fato de ter sido rejeitado por Trade. Ela bem sabia como era isso... Havia rejeitado sua única cria... O único ser do mundo que possuía seu sangue antigo e poderoso. Sempre tivera medo de criar novos vampiros a partir de si, já que era muito forte e seu sangue poderia transformar o humano num vampiro perigoso demais.
E a única herdeira de seu sangue ela rejeitara. Preocupava-se a cada dia com o que poderia acontecer àquele ser tão diferente... Rayne...

quinta-feira, 9 de julho de 2009

E as rosas sangram...





Oh sim, as rosas sangram, sei que sangram.
Quando o luar as toca, frio, elas reluzem a cor, escarlate, e sangram.
Sei também que as rosas falam.
Falam quando espetam os dedos delicados dela.
"Não me matem", dizem as rosas. As rosas falam e sangram.
Vou confessar que as rosas vivem, e que amam.
O coração das rosas bate inocente, mesmo assim amam as rosas.
Ainda que as arranquem, matem, beijem, mesmo assim sangram.
As rosas.
Simbolo de paixão, bonito adorno.
Tão belas e mudas, falam.
Vivem amando essas rosas, tolas rosas que sangram e choram.
E suas lágrimas rubras, do fundo da alma vem sem avisar, mancham as brancas pétalas da rosa que triste esconde seu olhar.
E olham para a lua fria, as rosas, e sangram porque é assim que as rosas sabem amar...