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quarta-feira, 18 de março de 2009

O Diário de Arthure Colt [Parte 1/6]



Um dia me disseram que diários eram bons. Que faziam com que nunca nos esquecêssemos do que passamos. Mas a verdade é que eu nunca me esqueço. Criaturas como eu não se esquecem. Talvez fosse melhor começar com uma apresentação simples. Mein name ist Herr Colt. Ou melhor, meu nome é Arthure. Arthure Colt. Nasci há alguns anos atrás em um lugar que hoje chamam Alemanha. Vi guerras, anteriores à aviões, vi deuses perecerem e estilos mudarem. Mudei com eles. Me adaptei. Fazemos isso. Aprendemos novas gírias, expressões. Novas abordagens.
Mas não vim aqui para falar de mim.
Muitas mulheres já passaram pela minha vida, talvez você deva notar. E todas elas tiveram o mesmo destino doce da morte em meus braços. Nenhuma, devo logo ressaltar, nenhuma, sobreviveu a mim. Ninguém o faz. Se existe algo parecido com a morte, este seria eu. Atraente, misterioso e perigoso. Mas não me pense como um ser cruel e frio, pois não sou. Eu as amei. A uma em especial. Mas vou lhe contar sobre cinco delas. As que, sem dúvida, mais me marcaram. Todas me pertencem, e seus sangues correm em minhas veias. Centenas delas. Mas essa meia dezena são as que mais me assombram.


Esses são os nomes, não em sua respectiva ordem:

. Layla (1785)
. Kristie (1854)
. Glória (2008)
. Kelle (2001)
. Munique (1942)

Começarei com ela, aquela que me encantou com seu jeito sério e metódico. A mãe ariana de três filhos arianos em uma Alemanha nazista. E devo dizer, esposa de um marido grotesco.






MUNIQUE

Como o nome da cidade assim se chamava ela. Os cabelos loiros caiam lisos, mal presos, pela face fina, alva. O nariz afilado entre os olhos grandes e azuis, concentrados no legume que cortava com precisão. Umas das crianças, a menor, brincava no chão da sala com pequenas cruzes. Um símbolo da destruição de milhões de pessoas. O cheiro de seu suor me inebriava os sentidos. Em época de racionamento até os banhos eram controlados.
Depois de alimentar Carle, ela desceu até o banheiro e se banhou pela semana. Saiu com os cabelos molhados, o roupão puído. Quando o despiu, eu, que a observava da janela, arquejei. O corpo curvilíneo, longe de ser magra, mas tampouco gorda. Belíssima mulher. Pele perfeita. Ela se fitou no espelho, os olhos tristes. As lágrimas correram dos olhos alemães enquanto eu sentia a solidão que emanava dela. A campainha.
- Carle, é Frau Berta. Vá logo. – gritou.
- Tchau mamãe. – respondeu a menina, batendo a porta. Juventude Nazista.
E ela ficou ali. Um longo momento depois, se jogou na cama e respirou fundo. Vi o peito alvo subindo e descendo, ali, nua na cama.
A observei por minutos sem fim, quando ela finalmente se levantou e se vestiu de um vestido velho, mas asseado. Resolvi por sair de sua janela e ir caminhar pela rua, onde alemães andavam atarantados e crianças brincavam despreocupadas. Me sentei em um dos degraus de uma das saqueadas lojas judias que haviam no local, até que resolvi entrar. O judeu me olhava assustado. Afinal eu era obviamente alemão, e ariano, digamos assim. O nariz, os olhos, cabelos loiros compridos. Acho que o que ele mais estranhou foram os cabelos, já que naquela época todos eram bem cortados, ao passo que os meus passavam dos ombros, meio rebeldes, e eu não fazia questão de prendê-los.
- Tem algo pra vender? – perguntei, polidamente.
- O senhor deveria sair... Antes que o vejam. – disse, apontando para os soldados fardados, a cruz costurada nos braços, que encaravam a loja.
- Não nos farão mal. – respondi, solene.
Ele me olhou meio maluco e sussurrou.
- O senhor não faz parte do partido...
- Não, não faço.
Eu o encarava abertamente.
- Não compram aqui há tempos... Já não tenho quase nada... - murmurou, quase em lágrimas.
-Acalme-se, venda-me qualquer coisa.
- Tenho alguns cereais ainda... E morangos. Tenho morangos... Mas eles não sabem.
- Dê-me o que ainda tem, e os morangos. Embrulhe tudo. – pedi. E ele o fez, as mãos tremendo porque os soldados entravam na loja.
- Guten Morgen. – disseram.
- Guten Morgen. - respondi, e o judeu permaneceu calado, embrulhando as coisas.
- Morangos? – perguntou o mais baixo. – Tem cartão de racionamento?
- Não. Pago com moedas de ouro. Cartões não me valem de nada. – respondi, em afronta.
Me encararam com hostilidade.
- Você. – disse o mais alto apontando para o judeu – Onde conseguiu morangos? E você? – voltou-se para mim – Não é do partido.
- Ele tem morangos porque eu o pedi, e não sou de bosta de partido nenhum. Não tenho aspirações políticas.
O judeu estava a ponto de ter um ataque dos nervos, e os soldados chegaram ao auge da hostilidade tirando cassetetes de dentro de suportes nos cintos.
- Pretendem me bater? – perguntei.
- Vamos prendê-los. – cuspiram.
- Tentem.
Em meus olhos o brilho perigoso. Quando se aproximaram quebrei seus pescoços tão rápido que eles nem mesmo viram acontecer.
- Precisa levar algo daqui? – perguntei.
- N...Não... Tudo vendi ao senhor...
- Então fuja com sua família. – disse ao judeu, que me olhava assombrado, enquanto eu lhe empurrava uma pequena sacola cheia de moedas de ouro. – Vá logo, homem!
E ele se foi, com os olhos arregalados. Esperei e o vi saindo da loja. Joguei o álcool que achei na despensa nos corpos e em todo o chão e paredes, e queimei o lugar.
Quando Munique Stainer abriu a porta, os cereais e os morangos jaziam a seus pés e ela os pegou, antes que alguém os visse. Tentei me esconder, mas ela me captou. Fitou meus olhos e me olhou daquele jeito... Como um animal ferido. Deixei que as sombras me envolvessem por completo e ela fechou a porta.

Duas semanas depois a vi voltando, depois de levar os filhos à escola. Notei seu olhar de soslaio para o beco onde eu sempre me escondia para observá-la. E, pela primeira vez ela virou-se diretamente para mim e vi seus lábios na pronúncia:
- Entre.
Todos os dias eu via seu marido saindo pela manhã, ela levar os filhos à escola, depois voltava e trabalhava na casa, ou costurava, ou lavava, ou chorava.
Quando ela fechou a porta eu já estava lá. Se assustou com meu súbito aparecimento, mas se controlou.
- O que quer? – me perguntou, em um sussurro. Sua voz quase como uma punhal em meu estomago.
- Você.
A abracei e ela, como todas se entregou a mim, cada parte de si. Enquanto acariciava suas carnes ou quando passava o rosto pelos seus seios, os sussurros alemães da mulher que sofria... Mas em meus braços ela fazia o melhor. Se esquecia. Quando mordi seu seio alvo ela se desfez como uma estátua de açúcar em meus braços. De entregou à minha sede e em ondas a levei em meu abraço carinhoso, e sorrindo Munique deixou a guerra, os filhos, o marido. Mas eu bem sabia, sentia em seu sangue, que ela estava feliz.



Depois de fugir com seu corpo, seu sangue em minhas veias, e seus lábios nos meus, a enterrei em um vale. Enterrei bem fundo, para que a guerra não a atingisse, e então puxei algo do bolso. Um pacote de sementes que achei na loja do judeu. As enterrei com Munique, e hoje, quando visito seu túmulo, vejo que suas lágrimas deram frutos.

Um comentário:

  1. nossa, muito bom o texto... a forma como descreve as coisas, esperarei as outras 4 restantes..
    voce ja pode lançar um livro, com um personagem tão bem contruido e esta forma de escrever concerteza sairia um otimo livro.

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