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segunda-feira, 30 de março de 2009

Enquanto crio...

Vai aí uma coisa velha, que escrevi há trevas!
Enquanto isso trabalho em mais um dos casos de Arthure Colt!

Batidas.

Batidas. Batidas de um coração fraco. Lítio. Entorpecente. Qualquer coisa que me faça dormir. Dormir. Talves nunca mais acordar. Daqui há alguns anos... Por que não? Fechar os olhos... Dormir sem sonhar. Sonhos...
Sonhos, a banalidade de um espírito simples. Espíritos complexos e tontos, como o meu, só geram pesadelos. Revelações em uma palavra.
Amor...

- Pra que se ama?
- Para que um dia se diga: "Eu amei".
- O que é amar?
- É entregar a vida à um ser, que na maioria das vezes, nem se importa. É dar-se da cabeça aos pés, dormir desarmado no meio de uma guerra.
- O que é a vida?
- Vida?... É uma procissão sem fim de pessoas, que na maioria das vezes não permanecem, que não tem fim exato... E quando acaba, simplesmente, nunca teve algum sentido.
- O que tem sentido?
*Silêncio*
- Aí você quer demais de mim... Faça outra pergunta.
- O que são estrelas?
- São pontos de luz no céu... São pontos que Ele te dá pra traçar seu próprio caminho.
- Como aquelas revistinhas de desenho pra completar?
- Aham...
- E a lua?
- A lua... A Lua é o olho dos amantes... Que, na verdade, nunca amou.
- E o sol?
- É um bola de fogo... Única coisa que nos mantém aquecidos.
- Posso perguntar mais?
- Sim...
- O que é a Morte?
- Morte?
- Sim.
- Morte é o abismo onde a procissão da Vida cai.
- E acaba ali?
- Acho que sim...
- Que patético!
- Onde você vem aprendendo essas palavras?
- Eu leio!
- Humpf. Tá lendo demais.
- Mas não tem sentido...
- O que?
- Acabar assim.
- Lá no comecinho você me perguntou o que tinha sentido...
- E o que você disse?
- Ah! Volta lá e lê!
- Você não respondeu!
- E continuo sem saber a resposta.
-Não sei mais o que perguntar...
- Não pergunte mais nada. Agora, durma.
- Pra que?
- Simplesmente pra dormir...

quarta-feira, 18 de março de 2009

O Diário de Arthure Colt [Parte 1/6]



Um dia me disseram que diários eram bons. Que faziam com que nunca nos esquecêssemos do que passamos. Mas a verdade é que eu nunca me esqueço. Criaturas como eu não se esquecem. Talvez fosse melhor começar com uma apresentação simples. Mein name ist Herr Colt. Ou melhor, meu nome é Arthure. Arthure Colt. Nasci há alguns anos atrás em um lugar que hoje chamam Alemanha. Vi guerras, anteriores à aviões, vi deuses perecerem e estilos mudarem. Mudei com eles. Me adaptei. Fazemos isso. Aprendemos novas gírias, expressões. Novas abordagens.
Mas não vim aqui para falar de mim.
Muitas mulheres já passaram pela minha vida, talvez você deva notar. E todas elas tiveram o mesmo destino doce da morte em meus braços. Nenhuma, devo logo ressaltar, nenhuma, sobreviveu a mim. Ninguém o faz. Se existe algo parecido com a morte, este seria eu. Atraente, misterioso e perigoso. Mas não me pense como um ser cruel e frio, pois não sou. Eu as amei. A uma em especial. Mas vou lhe contar sobre cinco delas. As que, sem dúvida, mais me marcaram. Todas me pertencem, e seus sangues correm em minhas veias. Centenas delas. Mas essa meia dezena são as que mais me assombram.


Esses são os nomes, não em sua respectiva ordem:

. Layla (1785)
. Kristie (1854)
. Glória (2008)
. Kelle (2001)
. Munique (1942)

Começarei com ela, aquela que me encantou com seu jeito sério e metódico. A mãe ariana de três filhos arianos em uma Alemanha nazista. E devo dizer, esposa de um marido grotesco.






MUNIQUE

Como o nome da cidade assim se chamava ela. Os cabelos loiros caiam lisos, mal presos, pela face fina, alva. O nariz afilado entre os olhos grandes e azuis, concentrados no legume que cortava com precisão. Umas das crianças, a menor, brincava no chão da sala com pequenas cruzes. Um símbolo da destruição de milhões de pessoas. O cheiro de seu suor me inebriava os sentidos. Em época de racionamento até os banhos eram controlados.
Depois de alimentar Carle, ela desceu até o banheiro e se banhou pela semana. Saiu com os cabelos molhados, o roupão puído. Quando o despiu, eu, que a observava da janela, arquejei. O corpo curvilíneo, longe de ser magra, mas tampouco gorda. Belíssima mulher. Pele perfeita. Ela se fitou no espelho, os olhos tristes. As lágrimas correram dos olhos alemães enquanto eu sentia a solidão que emanava dela. A campainha.
- Carle, é Frau Berta. Vá logo. – gritou.
- Tchau mamãe. – respondeu a menina, batendo a porta. Juventude Nazista.
E ela ficou ali. Um longo momento depois, se jogou na cama e respirou fundo. Vi o peito alvo subindo e descendo, ali, nua na cama.
A observei por minutos sem fim, quando ela finalmente se levantou e se vestiu de um vestido velho, mas asseado. Resolvi por sair de sua janela e ir caminhar pela rua, onde alemães andavam atarantados e crianças brincavam despreocupadas. Me sentei em um dos degraus de uma das saqueadas lojas judias que haviam no local, até que resolvi entrar. O judeu me olhava assustado. Afinal eu era obviamente alemão, e ariano, digamos assim. O nariz, os olhos, cabelos loiros compridos. Acho que o que ele mais estranhou foram os cabelos, já que naquela época todos eram bem cortados, ao passo que os meus passavam dos ombros, meio rebeldes, e eu não fazia questão de prendê-los.
- Tem algo pra vender? – perguntei, polidamente.
- O senhor deveria sair... Antes que o vejam. – disse, apontando para os soldados fardados, a cruz costurada nos braços, que encaravam a loja.
- Não nos farão mal. – respondi, solene.
Ele me olhou meio maluco e sussurrou.
- O senhor não faz parte do partido...
- Não, não faço.
Eu o encarava abertamente.
- Não compram aqui há tempos... Já não tenho quase nada... - murmurou, quase em lágrimas.
-Acalme-se, venda-me qualquer coisa.
- Tenho alguns cereais ainda... E morangos. Tenho morangos... Mas eles não sabem.
- Dê-me o que ainda tem, e os morangos. Embrulhe tudo. – pedi. E ele o fez, as mãos tremendo porque os soldados entravam na loja.
- Guten Morgen. – disseram.
- Guten Morgen. - respondi, e o judeu permaneceu calado, embrulhando as coisas.
- Morangos? – perguntou o mais baixo. – Tem cartão de racionamento?
- Não. Pago com moedas de ouro. Cartões não me valem de nada. – respondi, em afronta.
Me encararam com hostilidade.
- Você. – disse o mais alto apontando para o judeu – Onde conseguiu morangos? E você? – voltou-se para mim – Não é do partido.
- Ele tem morangos porque eu o pedi, e não sou de bosta de partido nenhum. Não tenho aspirações políticas.
O judeu estava a ponto de ter um ataque dos nervos, e os soldados chegaram ao auge da hostilidade tirando cassetetes de dentro de suportes nos cintos.
- Pretendem me bater? – perguntei.
- Vamos prendê-los. – cuspiram.
- Tentem.
Em meus olhos o brilho perigoso. Quando se aproximaram quebrei seus pescoços tão rápido que eles nem mesmo viram acontecer.
- Precisa levar algo daqui? – perguntei.
- N...Não... Tudo vendi ao senhor...
- Então fuja com sua família. – disse ao judeu, que me olhava assombrado, enquanto eu lhe empurrava uma pequena sacola cheia de moedas de ouro. – Vá logo, homem!
E ele se foi, com os olhos arregalados. Esperei e o vi saindo da loja. Joguei o álcool que achei na despensa nos corpos e em todo o chão e paredes, e queimei o lugar.
Quando Munique Stainer abriu a porta, os cereais e os morangos jaziam a seus pés e ela os pegou, antes que alguém os visse. Tentei me esconder, mas ela me captou. Fitou meus olhos e me olhou daquele jeito... Como um animal ferido. Deixei que as sombras me envolvessem por completo e ela fechou a porta.

Duas semanas depois a vi voltando, depois de levar os filhos à escola. Notei seu olhar de soslaio para o beco onde eu sempre me escondia para observá-la. E, pela primeira vez ela virou-se diretamente para mim e vi seus lábios na pronúncia:
- Entre.
Todos os dias eu via seu marido saindo pela manhã, ela levar os filhos à escola, depois voltava e trabalhava na casa, ou costurava, ou lavava, ou chorava.
Quando ela fechou a porta eu já estava lá. Se assustou com meu súbito aparecimento, mas se controlou.
- O que quer? – me perguntou, em um sussurro. Sua voz quase como uma punhal em meu estomago.
- Você.
A abracei e ela, como todas se entregou a mim, cada parte de si. Enquanto acariciava suas carnes ou quando passava o rosto pelos seus seios, os sussurros alemães da mulher que sofria... Mas em meus braços ela fazia o melhor. Se esquecia. Quando mordi seu seio alvo ela se desfez como uma estátua de açúcar em meus braços. De entregou à minha sede e em ondas a levei em meu abraço carinhoso, e sorrindo Munique deixou a guerra, os filhos, o marido. Mas eu bem sabia, sentia em seu sangue, que ela estava feliz.



Depois de fugir com seu corpo, seu sangue em minhas veias, e seus lábios nos meus, a enterrei em um vale. Enterrei bem fundo, para que a guerra não a atingisse, e então puxei algo do bolso. Um pacote de sementes que achei na loja do judeu. As enterrei com Munique, e hoje, quando visito seu túmulo, vejo que suas lágrimas deram frutos.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Arthure Colt [Parte Final]


Acho que até aí nada extraordinário não, irmão? Tenho certeza de que me entreguei á ele de espontânea vontade. Senti-me tão apaixonada quando me beijou, que nem pensei que ele era um completo estranho a mim.
Bem, voltemos aos fatos.


“Sentia-me fraca e solitária. O sol, ainda batia forte contra minha cortina que permanecera fechada. Mas, reparei, a porta do quarto estava aberta e entrava uma corrente de ar por ali, me fazendo reconhecer minha nudez pela primeira vez. Ouvi ruídos no andar de baixo, mas não poderia ser minha mãe... Desci enrolada no lençol, temerosa.
- Quem está aí? – perguntei, a voz num sussurro. Senti que minhas pernas iam falhar e quando me inclinava involuntariamente para os degraus de onde rolaria, mãos frias e firmes me apararam.
- Cuidado. – disse aquela voz profunda, dolorosamente grave, como se penetrasse o fundo de minha mente.
- Me solte... – protestei, mas ele sorria para mim, e como era belo! Sentia vontade de chorar ao ver seu rosto divino, angelical. Apertou os olhos azuis para mim e tocou levemente meus lábios com os seus. – Por favor... – implorei, virando o rosto, tentando abafar minha enorme vontade de tê-lo de novo.
Mas, ao em vês de me soltar, ele me tomou nos braços e me carregou para a cama novamente.
- Não deve fazer esforços agora. – disse, preponderante.
- Porque estou assim? – sussurrei. – Tão fraca...
- Porque você é doce... Só por isso. – e sorriu. Mais um daqueles sorrisos carinhosos, nos olhos um brilho estranho. Percebi que ele estava mais corado agora. Toquei seu rosto. Ele fechou os olhos, apreciando meu toque, encostando mais a face em minha palma, como um gato manhoso. Sorri.”


Porque meu irmão, eu estava tão loucamente apaixonada por aquela criatura que não me importava quem era, ou que fizera comigo. Ignorava seu nome, seus motivos, sua pessoa. A verdade é que sua aura me dominava e eu adorava a sensação protetora que tinha perto dele. E o jeito que ele se deleitava ao meu toque... Deus! Agora, longe de sua presença perturbadora, me pergunto o que diabos houve! Mas não acho resposta. Às vezes penso que foi um sonho, mas ainda posso sentir seu perfume em minha pele e o gosto de seus lábios nos meus.


“– Qual seu nome? – perguntei, melhorando do mal estar. Ele tocou meus cabelos vermelhos, meio rebeldes e mordeu o lábio, acho que vi um relampejar de dor em seus olhos tão belos.
- Colt. – sussurrou. – Arthure Colt.
- Arthur... Arthure? – repeti, insegura. – Não é um nome comum.
- Não... – concordou ele.
- Mas você não é comum mesmo né! – ri-me. – Me toma assim, sem nem ao menos me conhecer... E sabe-se lá como, me leva pra cama e me deixa assim rendida sob seu olhar...
Seu sorriso se alargou.
- Eu te conheço Caroline Rosa Santos. Sei a cor de seus olhos verdes, sei que pinta o cabelo loiro dessa cor flamejante. Sei que tem uma gargalhada gostosa...
- Como sabe meu nome, Arthure?
- Ah, meu amor... Sei de tantas coisas... Sei que você é minha... E você também sabe.
- Está me soando um tanto doentio essa declaração. – disse, me afastando.
- Não me negue. Você é minha. É você quem eu procurava. Vi em seus olhos, confirmei em seu sangue.
- Meu... Meu sangue? – exclamei, definitivamente assustada.
E quando me olhou já não tinha os olhos azuis, mas sim totalmente negros. Os caninos de mais de três centímetros saltavam de sua boca. Soltei um gritinho apavorado, mas ele já havia voltado ao que eu supunha ser seu normal e estava tão próximo de mim. Foi tão rápida sua aproximação que eu não vi movimentos, apenas me encolhi contra a parede, segurando com força o lençol, como uma proteção.
- Não tenha medo de mim, meu anjo... – sussurrou no meu rosto, o hálito inebriante. Fechei os olhos e mordi os lábios. Não temia mais... – Sou apenas um homem ao seu lado. – continuou, acariciando meu rosto com os dedos finos.
- Não, não é. – disse, mas de um jeito meu sufocado, por que ele me apertava contra a parede. O peito largo como um muro impedindo meus movimentos. Deliciosamente aprisionada, era como eu me sentia.
- Não, não sou. – concordou, com uma risadinha. – Sou um pouco pior.
E como se nunca tivesse estado ali, ele desapareceu sob meus olhos. Se ainda não sentisse a frieza de sua pela cravada na minha, ou se seu cheiro ainda não estivesse rodeando meu quarto, eu poderia ter jurado que ele não existira.

Quando me recompus desse sonho tão real, desci e minha mãe acabava de chegar. O céu escuro mostrava que a noite já caíra por completo sobre a cidade.
- Olá querida. – disse, sorridente.
- Oi, mãe. – sussurrei. Os olhos meio desfocados ainda.
- Veja bem, vou sair com Alex hoje, está bem?
- Ok...
- Vou tomar um banho.
E subiu apressada. Aproveitei e liguei o rádio, pus um cd que gostava e me deitei no sofá, fechei os olhos e me deixei absorver pela música. Por algum tempo me deixei alienar de todo o universo. Não pensei em Arthure, a quem eu pensava meu amigo imaginário, nem em nada concreto ou não. Deixei apenas a mente vagar pelas notas a esmo do piano.
- Estou indo, Carol. – disse minha mãe, me despertando de meu transe.
- Ok. Cuide-se e divirta-se.
- Tchau. – e bateu a porta.
Voltei novamente o rosto para a sala notei uma rajada de vento frio. A janela estava aberta antes?, me perguntei. Aumentei o rádio e fui arrumar algo para comer. Depois de cerca de duas horas de TV, me vi cansada demais e fui dormir.”

Arthure Colt. Há dois dias isso aconteceu, e a janela no meu quarto dorme fechada, como você bem sabe, mas quando acordo, está aberta. Estou encerrando esse e-mail e me pergunto se acreditou em mim. Sim, ele era um vampiro. Provou de meu sangue. Amou-me. E eu o amei por minutos, breves demais.
Às vezes passo instantes a fio na janela, observando as ruas. Talvez quem saiba ele não está abaixo, sorrindo para mim...]




Alguns dias depois recebi outra mensagem de Caroline, mas não era dela, veja bem.

“Talvez pensem que ela desapareceu, nunca encontrarão seu corpo. Não está morta, mas vive eternamente no berço de meus braços.

Arthure Colt.”


Há três anos não tenho notícias de Caroline, mamãe ainda a procura, mas eu sei que ela nunca voltará.



Um abraço, Filipe Rosa Santos.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Arthure Colt [Parte Um]



Em anexo a história que me pediu, e sim, eu acredito nela.






[Quando acordei naquele dia não tive a mínima noção de como as próximas vinte e quatro horas seriam loucas. Pensei mil vezes antes de te mandar esse e-mail por que eu tenho certeza de que quando você lê-lo, vai rir e chamar seus amigos para lerem esse conto extraordinário. Mas, eu devo te dizer: nunca mostre isso a ninguém.
Existe apenas um motivo para que eu te conte isso. E o motivo é: não perder totalmente minha sanidade. Se eu manter esse segredo comigo apenas, é capaz de que um dia eu acorde e me tenha por louca. Porque você? Aposto que essa pergunta passou pela sua cabeça. Mas, eu te conto... Você é o único ser que eu conheço que poderia acreditar em mim, de alguma forma.
Acho que agora eu poderia começar...


“Segunda-feira. Um dia odioso, devo dizer. Saí da cama meio amarrotada e me arrastei para o banheiro, onde tomei um banho, gelado, para acordar. Já mais desperta, abri a porta do armário de roupas e escolhi umas peças alheias. Vesti-me e desci para o café. Um dia comum, como todos os outros. Só por uma coisa que eu não notei a princípio: o tempo estava fechado. No meio do verão carioca é muito comum vermos chuva e sol, mas dificilmente uma escuridão mórbida como aquela. Acho que eu deveria ter notado, a partir daquele primeiro presságio, que o dia não seria bem o que eu imaginava.
Depois de meio copo de suco e um sanduíche de queijo e presunto, eu liguei meu mp4 em uma música animada e me pus em rumo à faculdade. Acho que você já sabe o que deveria saber sobre mim, então não vou ficar dando detalhes, vou apenas contar as coisas estranhas e bizarras, devo ressaltar, que me aconteceram naquele dia. Logo pela manhã os episódios já começaram.

“Caminhava pela calçada quando me senti observada. Quando olhei para as sombras de um carvalho, vi um homem ali, parado. Ele me observava tão abertamente que me senti subitamente ameaçada. Procurei atravessar a rua, mas desisti no último momento, não me lembro exatamente por que. Continuei no mesmo caminho, assim como o estranho permanecia a me encarar. Notei seus olhos misteriosos vagando sobre mim. O rosto pálido protegida por um chapéu arcaico. Quando comecei a repará-lo é que notei a capa longa que trazia. Muita proteção para um calor daqueles. Por mais que o sol estivesse inteiramente coberto, ainda permanecia a temperatura abafada, que você conhece muito bem. Achei aquilo estranho, mas como a pessoa em si já era no mínimo, duvidosa, não me liguei muito nesse detalhe.
Passei por ele, e só então notei a beleza de suas feições. Recordo-me nitidamente desse exato momento, quando nossos olhos se encontraram no mesmo nível, mesmo ele sendo um tanto mais alto do que eu. Os topázios azuis, brilhantes, que me encaravam, frios. Tinha as sobrancelhas claras e grossas, bem desenhas. Um rosto másculo... E eu não pude deixar de arquejar ao ver seus lábios meio finos, tão vermelhos... Um contraste gritante contra a pele tão alva. Não parei de andar e me proibi de olhar para trás. Entrei na faculdade quase correndo e quando sentei na carteira me senti atraída para janela. Andei até ela e olhei para baixo. Incrivelmente lá estava ele, com a cabeça levantada fitando a mesma janela que eu jazia. Não sei dizer com certeza, mas acho que ele sorriu para mim... Acho que nunca saberei.

“Eram três horas da tarde quando deixei o campus, não pude deixar de procurar por ele, mesmo me sabendo em grande encrenca. Afinal, poderia ser um estuprador, assassino ou ladrão! Andei rápido para casa e quando já entrava em minha rua - aquela na qual costumávamos a brincar há uma década atrás -, fui abordada tão subitamente que me assustei.
- Carol! – gritou ele.
Sobressaltei-me e arregalei os olhos esperando o pior.
- Ah!
- O que houve? – perguntou, preocupado com meu susto.
- Nada, Eduardo... É que... Nada, deixe pra lá.
- Tudo bem... – concordou, meio desconfiado.
- Como está?
- Bem, bem. – respondi atarantada, enquanto secava o suor da testa com as costas da mão. Maldito verão! Ah! Como eu odeio suar!
- Não me parece muito bem... Caroline, você está pálida. Viu um fantasma?
- Ahn? Não... É... Eduardo eu tenho que ir. Tchau.
Virei-me e ainda ouvi-o me chamar algumas vezes, mas entrei em casa sem olhar pra trás. Mamãe ainda não tinha chegado e eu me vi sozinha. Respirei fundo e caminhei até a escada, galguei-a até meu quarto e ao entrar na escuridão refrescante, meu coração quase parou quando vi o vulto alto, com o familiar chapéu e a capa escura. Ao se virar para mim, senti um grito de histeria subir pela minha espinha quando fitei seus olhos brilhantes. Um efeito meio felino. O sorriso aumentou ainda mais o meu pavor, vendo aquele ser belíssimo me olhando daquele jeito.
- Feche a porta. – ordenou a voz surpreendentemente profunda.
Obedeci, horrorizada com seu timbre sobrenatural. Enquanto seguia sua ordem, notei que ele tirava o casaco e o chapéu, revelando os cabelos desgrenhados, castanhos claros, quase loiros. Usava uma blusa branca de mangas compridas, a frente meio aberta revelando parcialmente o peito forte.
- O que acha de uma brincadeirinha, Caroline?
Eu tremia de medo, temia que ele me estuprasse, ou pior, me matasse lentamente. Ele tinha um daqueles sorrisos doentios... Pensava em meu triste futuro quando me ocorreu: como diabos ele sabia meu nome? Mas antes que eu pudesse formular a pergunta, ele já me tocava. Moveu-se com tamanha rapidez que eu nem o vi fazê-lo. Pisquei e ele já estava quase em cima de mim.
Acariciou meu rosto com os dedos, e antes que eu pudesse me afastar, aterrorizada, seus lábios tocaram os meus. Não posso lhe explicar o efeito que isso causou em mim, apenas que eu sentia uma vontade louca de retribuir. Era mais forte do que eu aquele desejo invencível de pertencer a ele. Passei meus braços pelo seu pescoço enquanto entregava cada parte de mim naquele beijo. Ele me levantou e eu passei minhas pernas pela sua cintura, abraçando-o.
Acho que não preciso lhe descrever os detalhes, certo? Já que eu mesma não me lembro muito bem... Era tudo muito turvo e surreal. Só acho que deveria saber que, enquanto me beijava senti uma pequena ardência nos lábios, nada incomodo, e depois veio a dormência e quando acordei, estava sozinha em minha cama. Mas, ainda podia sentir o toque frio de seu corpo, como marcas, no meu.”
Continua...